Tenho alguns vocábulos que nunca encontro. Palavras corriqueiras e poucas, porém sempre as mesmas.
Não pode! pensa o leitor. Pode, sim, responde meu célebro, como diz minha filhinha e dizia eu infante. Algum cluster deve estar danificado, e o sistema não consegue reparar o dano. Ou a palavra não foi salva direito, logo de início, sem eu perceber. Deixa ver: são as palavras... as palavras .... Não em jeito! Também! Com o cluster “quebrado”!
Chatice! Fosse ao menos pro inglês, onde tenho recursos digitais. Mas alemão <> português. Nada! Que preguiça de procurar o gordinho em papel! Folhar e folhear e foliar ‑ que nem outono boreal. Deve haver outro jeito!
Descanso o queixo na palma, no punho, nalguns dedos dobrados. Fito a tela. Descubro o chiclete. O punho se abre, abre o chiclete, o chiclete faz a boca abrir. Calma, calma! Também o novo exercício físico não abre a gaveta certa na estante certa no corredor certo no setor certo do departamento certo. Lá no alto. Lá dentro.
Tu sempre sabia! Tantas vezes encontraste. É a mesma palavrinha.... Será possível? Será?
Espiada de soslaio ‑ lá está o gordinho. Puxa! Porque não te abres sozinho e pulas na tela, como outros fazem, sabidinho? Tirar as mãos das teclas é como dar uma parada em carro a 80. Tu sabes. A gente para quando chega.
Deixa! Vamos dar mais meio minuto de chance para o andar de cima ‑ não é possível! Nada. Nada feito!
Tá bem, não tenho mais tempo para perder! Ganhaste, Langenscheid. Mas não me prega a mesma peça de sempre! - Silêncio. Nem olha.
Lanço minha mão à sua direção. O toque. A iluminação! Está aí a palavra! Palavra que nem estava na ponta da língua. É brincadeira (do dicionário)!
Às vezes não basta o toque para o efeito, é verdade. É preciso folhar, encontrar alguma palavra que inicie com a respectiva letra ‑ e cá está essa palavrinha boa no esconde-esconde!
Um braço, uma mão, um toque em capa e papel – uma ponte, um curto-circuito, uma luz, uma solução (já conhecida)!
Hipóteses? Claro. Mas sobre fatos.
Ah! O toque teve seu efeito: são as palavras: sobrinho, ciúme - e mais algumas. Corriqueiras que só. Não disse?
Oi, onde estão vocês três? Que sincronia! Fosse somente uma a desaparecida, o assunto não caberia nesse blog. Agora, logo as três! Isso deve preocupar o tradutor hodierno. Digo moderno, porque o tradutor clássico não terá experimentado a tríplice ocultação.
Na verdade, ainda sou um dos clássicos, se bem que não o último, por falta de idade. Quando vejo a lacuna, a preencho, como bem me ensinaram, já sem palmada, em tempos juscelinos e brizolistas!
Mas aí que está o problema. Aliás, um problema de obediente ex-secundarista. O que então esteve certo, hoje parece errado. A gente não o percebe quando falta apenas uma delas. Mas quando a Ana e a Anna, cruzando fronteires e oceanos, se tratam do mesmo jeito, e até a Ann cai no coro uníssono – então não podem estar todas erradas e eu certo!
É o que ando pensando. Sempre mais. Os textos que recebo me forçam a cogitá-lo. Os mails de todos os lados: de amigos e inimigos, de vírus, piratas e espiões. Nenhum deles quer saber de vocativos, que definham sem sua virgulazinha.
Não chego a nenhuma conclusão. Mudo o método. Paro de ler com os olhos e leio com a boca. E constato que elas têm razão. A fala não deixa o mínimo espaço para a vírgula. Realmente não cabe!
Nos tempos da formalidade, “Boa tarde, seu João!” era sinônimo de “Desejo-lhe uma boa tarde, seu João!” Hoje, “Olá Ana!” ainda significa “Dou-lhe um olá, Ana!”? Significa antes um ”Te percebi, Ana!”
Retornando ao ofício: se traduzo correspondência (e o faço), e ambos os lados escrevem na maneira moderna, já não sinto mais cacife para imprimir tempos idos a tempos modernos. As Anas me matam pelo cansaço. E é assim que as coisas evoluem e sempre evoluíram. Matando pelo cansaço. O que admira, é a simultaneidade nas três culturas, se não em outras mais.
Espiemos ainda, sobre o “alô”, o Houaiss, que está com um pé de cada lado do muro, onde vejo dois vocativos: 1 us. para chamar a atenção de outrem Ex.: a. vocês aí embaixo 2 us. como saudação Ex.: a., amigos radiouvintes
E eu toda manhã abrindo meus “Hallo Herr Dressel!” da nova geração de secretárias e de seus velhos seguidores! Fugir como? Acho que estamos liberando uma tecla para algum novo sinal. Talvez este: :)!
Será que acontece só comigo? Seja lá como for, fascina. E por isso comento. Bi, tri ou multilíngüe, a gente fica lendo muita língua cruzada.
Em tempos de internet, é como que simultâneo. Pula-se de um artigo na Folha Online, ao The New York Times, e já no Der Spiegel. E a coisa ainda pode se potencializar quando o pensamento vaga paralelamente em mais outros campos ocupacionais de nossos dia-a-dias. Aquilo de que qualquer psicólogo nos previne por maléfico a nosso bem-estar. Porém, seguindo analogia de filósofo não descartável nem longevo: existe por constatado.
Algumas vezes ocorre um descompasso estonteante: lá vão os luzeiros, avançando ao compasso de anos-luz (300 mil km por segundo – imagine ler o jornal em facção de segundos!), ao passo que a audição interna, que sustenta a leitura muda, avança a 343 metros por segundo. Bem, a referência vale para o meio ar a 20 °C. Como em nossa singular cabeça pouco ar há de ter, porém muitos neurônios aquecidos a 37 °C, deverá ocorrer alguma aceleração de fator a mim desconhecido, não obstante sem qualquer chance contra a célere concorrente, tão aspirada particularmente no século XVIII.
Meu transtorno, pelo visto e pelo que confirmo, não passa de facções ‑ se bem que delas muitas ‑ de segundos (uma facção seria, provavelmente, pouco até para a percepção do blackout, desse preto e branco do qual estou falando).
Quando acontece, acontece quando troco a marcha, por assim dizer. Quando altero da língua primeira, de uma leitura profunda, para uma segunda. Paro num inesperado ponto morto. Num curto-circuito, mágico instante que me desperta e faz estranhar. Quando as palavras lidas já não fazem sentido e soam enigmáticas: nasais em inglês, th’s no português. Instantes de desorientação nebulosa, sem perceptível lei da gravidade, que ao menos me daria uma base inicial, uma referência para um reposicionamento.
A audição íntima dá um basta e puxa os luzeiros de volta ao ponto de partida, para conferência, sincronização e câmbio, para reinterpretação.
Dopado sem droga. Eu acho legal. Pena que é ocasional e não provocável.
é uma vez mais aquela em que estamos batendo tanto. É que me ocorreu mais um baita argumento, prático e oral. Provém da minha remota experiência de professor de alemão para brasileiros, e veio-me à tona quando reli o texto O gigolô das palavras, lembrado em lista amiga.
Todos, em nosso ramo, conhecemos aqueles acanhados em falar línguas estrangeiras ou estranhas, como que de fogo. Que fazer com essas pessoas que preferem não aprender a errar? Como elas investem$$ no aprendizado do primeiro (dificilmente segundo) idioma estrangeiro, efetivamente precisam falar, e falam. Mas falam murmurando para evitar que alguém detecte seus inevitáveis erros.
Nestes casos, recorri ao que ouvira de incerta professora de línguas, que me convenceu de cara: fale alto e claro, fale para que escutem seus erros, que todo mundo lhe entenderá. Se não escutarem seus erros, pouco ouvirão e nada entenderão. Esses erros são evidentemente gramaticais, sabemos.
E não é a pura verdade? Conhecemos tanta gente estrangeira que muito peca em nosso idioma, mas os entendemos perfeitamente, pois são pecados apenas gramaticais, generosos e preposicionais. Digo perfeitamente em relação àqueles numerosos compatriotas que em perfeito português não dizem coisa com coisa.
Outra vitória da clareza e lógica sobre nossa querida gramática, nem sempre clara e lógica!
Livraria livraria tem seu cheiro todo especial. Tem porque todo livro tem seu cheiro de livro. Livro novo, velho, mofado, plastificado, esquecido, ilustrado. Claro que, quando livraria definha virando papelaria, o pobre resto dos livros fraqueja. E a livraria virtual, então.
Tenho em casa, entre o cheiro de meus livros, dois extremos: um de abrir as narinas até os pulmões, o outro, de guardar a sete chaves na queijeira.
O cheiro do primeiro exala há muitos anos do Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Mais precisamente, de sua capa de couro. Triste verdade é que, após 26 anos de convivência, esta capa deu o que teve a dar. O odor está mais virtual que real.
Foi parar em minha estante também o Novo Dicionário Websters, distribuído em cadernos, como cortesia para o assinante de um jornal. Cada verbete procurado é uma ânsia de vômito. Que processo químico terão usado na produção? Teria sido a razão da cortesia da editora?
A bem da verdade – também este nauseoso sucumbe ao tempo. Felizmente.
adverte o caminhoneiro na sua traseira. Pois perante cada tradução deveria constar a mesma placa. Mantenha distância! A distância para o original em sua estrutura lingüística, que invariavelmente quer impregnar e efetivamente impregna nosso labor quando este não for rotina aperfeiçoada.
É o constante “nós dizemos” do Agenor Soares de Moura, com que ‑ pasmem ‑ confronta até os melhores escritores-tradutores brasileiros. Não é mirabolante? Seria desleixo do tradutor? Penso, muito mais, que as ocorrências revelam a genuína gravidade do perigo corrosivo da transformação dos idiomas. Também o tradutor tem uma só cabeça.
Em meio a boa tradução de um edital do British Council, deparo-me com um “tem como objetivo encorajar o intercâmbio”, direto do inglês. Nós diríamos “incentivar” ou “fomentar”, também acepções do verbo “to encourage”. Falsa amizade! Mais: “A novidade este ano é o Charles Darwin Award”. Quanta preguiça para quem recebe pagamento por palavra! Deveriam descontar o prêmio de 7 centavos do “award”. E um desconto pelo mau ordenamento da frase. Mal cheira também: “As pesquisas podem ser em qualquer área de Ciências.” Aqui ocorre, no mínimo, pobreza de estilo. Outro desconto. Será que há tradutor que no final do mês não consegue saldar suas dívidas com o patrão, após receber, como é uso em certas fazendas no seio do Brasil?
Os parcos exemplos já não se restringem ao âmbito relativamente simplório do vocabulário. Envolvem a estrutura da frase.
Com a experiência, eu mesmo comecei a adotar a técnica de não me deter muito nesses itens na primeira corrida, pois já numa primeira revisão consigo melhor me desprender do idioma “opositor”, o que facilita chegar intuitivamente às soluções não encontradas na febre da batalha original. Na revisão descubro as vírgulas de uma gramática não brasileira; orações e intercalações que soam mal enquanto não deslocadas ao agrado do ouvido.
O fator tempo é o melhor amigo do tradutor para este desembaraço dos idiomas. Separa (distancia) o texto concreto à nossa frente do emergente texto virtual em nosso fundo. Uma terceira e quarta revisão, com intervalos de dias ou semanas, são bálsamo para as inevitáveis infecções de nossas línguas, que nos acarretam dor de ouvido e que depois não queremos engolir. Verdadeiro caso de otorrinolaringologista.
Pode haver título melhor para essa música, que prefiro na interpretação de Tânia Maria? Pode haver melhor música para esse título certeiro, samba com suingue, ou jazz com rebolado de samba?
Poesia, é claro, precisa ser certeira, senão não seria poesia. E essas três palavrinhas tão bem fundem a essência das duas culturas (musicais), a essência da música americana com a da brasileira. Colocam duas essências culturais em perfeita harmonia musical e poética. Não será exemplo único, como certamente ocorrerá a este ou aquele leitor calado. Mas é um exemplo perfeito.
Afinal, evitou-se o desgraçado “samba-jazz” ou “jazz-samba”. O grande poeta Gil providenciou sua própria e perfeita tradução. Chiclete, o símbolo maior daqueles que criaram o jazz e adoram comer uma banana exótica. Já a banana é o símbolo dos descamisados, que têm a seu alcance a preciosa banana e, modernamente, o pobre suplemento chewing gum. “Chiclete com banana” é uma "tradução", uma ponte perfeita. Quem masca chiclé, é norte-americano. Afinal, ninguém sabe que os astecas e os maias mascavam a goma original. Já o americano – que associação lhe suscitará, uma vez que sua banana provém da América Central? Imagina jazz com rumba ou merengue?
Como vemos, a tradução poética é perfeita - para nós brasileiros.
Quando a situação descontraída em circunstâncias de interpretação me permite, apresento o orador fulano tal, e depois a mim como seu papagaio, que tudo repete, mas à sua maneira.
Essa gracinha é menos gracinha do que parece. O profissional bem-sucedido tem a grande habilidade de interpretar parágrafos inteiros. Eu, por minha vez, nas poucas oportunidades anuais em que interpreto aulas ou palestras, interpreto oração por oração ou frases curtas. Algo entre consecutivo e simultâneo.
Afirmam que é conveniente ser bom orador para bem interpretar. Pois eu não sou bom orador nem mau orador. Simplesmente não sou orador. Não obstante, a minha técnica me permite interpretar determinadas falas. É uma técnica que surpreendente e felizmente compensa minha péssima memória de queijo suíço. Sinto minha forma de tradução como uma técnica que dispensa a memória, e por isso mesmo a figura do papagaio cola bem. A sensação é até mesmo de não estar pensando, de tão automaticamente que ocorre.
Interpretar uma fala clara e bem pensada não é lá complicado. Já falas desconexas, desestruturadas, o “pensar alto” calam o papagaio, que, boquiaberto, levanta as asas em desespero, recobrando seus sentidos apenas quando verdadeiramente interpreta.
Ich hob die Mule mit de Relhe ins Potrer getoggt, além do enunciador, entende só quem fala simultaneamente alemão e português brasileiro sulista – muitos qualificativos para um só ouvinte!
É a fala de grande parte do imigrante colono alemão no sul brasileiro, e significa: toquei a mula no potreiro. Potreiro, por sua vez, é sinônimo sulista de piquete.
A estrutura da frase é perfeitamente alemã. Um alemão perceberá que alguém está lhe falando em sua língua, mas nada entenderá. De outro lado, o brasileiro menos ainda entenderá, apesar de seu interlocutor usar suas próprias palavras. Os três substantivos da frase e parte do verbo composto são palavras portuguesas ligeiramente adaptadas à gramática alemã.
É uma língua sem escrita. Não é exatamente uma pequena Babel. É antes a sonhada, porém malograda solução democrática que Babel insinua: falemos uma única língua, que nos entenderemos! Só que quem entre os babilônios seguiu esta lógica tão lógica apartou-se dos demais e ficou em condições iguais aos demais.
Este idioma alemão brasileiro consagrou-se recentemente como mais uma língua autônoma de nosso universo. Mas a escolarização é seu coveiro.
P.S. O documentário www.ijuhy.com mostra o sotaque português dos falantes desse idioma hunsrückisch.
Por duas razões quero insistir na questão. Primeiramente, nós tradutores, literários e de prosa, constantemente temos que desmantelar e destroçar torneios paragráficos para reconstruí-los na forma natural de outro idioma. De preferência, esquecendo por completo a estrutura original, que nos vicia o resultado. Para tanto, nem de longe basta dar conta de palavras e sinônimos. Requer-se torneio e estrutura. A segunda razão é que toda hora minhas fontes não literárias me demandam a reconstrução. Muitas vezes, este processo de reordenamento me custa mais tempo do que a procura de algum sinônimo estrangeiro. Vejamos 2 exemplos típicos da prática, ou seja, da realidade:
a) ... eu estava escultando uma linda musica que mesmo sem agente ter mantido contado eu já escolhe essa linda musica para nos a letra é muito forte ela é assim: direpente quando menos se espera, (...) mas você vai se acustuma no final. deixe acontecer e você vai ver vale apena tenta.
b) ... Assim, considerando-se que como boa parte dos conteúdos trabalhados pela disciplina de história possibilitam uma grande aplicação prática, seria válida a contribuição através do desenvolvimento do presente estudo tendo como objetivo principal a apresentação de metodologias de trabalho utilizando-se saídas de campo como técnica de construção do conhecimento.
O primeiro exemplo é impactante, carece de gramática básica, o que é raro nesta dimensão. Mas não custa, a nós tradutores, consertar tudo sem grande perda de tempo. Já o pequeno segundo exemplo, academicista, me causa um atraso de talvez 15 minutos em função de seu estilo. Particularmente seus gerúndios nos transformam em arqueólogos à procura das origens e referências desses gerúndios.
Perdi o norte? Não. Soube de fonte fiável que há até escritor que não sabe escrever. Essa afirmação implica que o cara tem sucesso, senão não seria “escritor”. É, portanto, o leitor editorial que faz desse escritor um escritor. Difícil de digerir essa verdade, seguro. Mas em nada muda não acreditar. Para abrandar: deve ser coisa exclusivamente de escritor moderno.
Pois bem. Aonde eu queria chegar? A On writing well, de William Zinsser. Li outros livros do gênero, em alemão e português. Mas o português é o pior, é detalhista, técnico. O inglês é o melhor. Parte da lógica, do bom senso. É o que me dá pé: simplesmente pense no que está escrevendo. Seja simples, extinga chavões. Use palavras curtas em lugar de longas. Seja preciso. Corte. Ao cortar, se torna preciso. Ao cortar, recorre à gramática para encontrar soluções melhores, mais elegantes. Ao cortar, aguça seu sentido pelo bom estilo. É só. É a questão. E se quiser se aperfeiçoar nessa técnica, comece a mergulhar em detalhes gramaticais e de estilística. Não obstante, é gramestilo: pouca gramática, e muito estilo.
Estava com outra carta na manga para esta sexta quando me encanto pela palavrinha-chave das letrinhas, que novamente me cai na vista como possível tema anotado. Encanto e decisão acontecem no mesmo instante. Um pouco de intuição faz bem à redação!
É um tema que sinto como poético, como poesia de amor, bem entendido. É mais emocional, dá mais rédeas.
Bem, basta de prelúdio amoroso. O que me inspirou para o tema é uma coincidência na dupla dicionário e filas nas bilheterias do SESC, concretamente. Aquelas filas de ingressos pré-encomendados e reservados no nome da gente.
Observo ano a ano que os organizadores lá dominam mais ou menos a divisão por dois para o alfabeto de 24 letrinhas, mas não dominam a divisão em partes iguais das filas de seus espectadores. Devem estar separando a-m de n-z. A primeira fila chega a ser 5 vezes maior que a “minha” fila. E isso se repete ano a ano. Acentua-se a desproporção porque deixam até todas as Marias brasileiras na primeira fila.
Outro enfoque: sempre observo nos dicionários brasileiros como aquela divisão tradicional que cai entre as letras m e n acentua artificialmente o desequilíbrio do dicionário. Minha velha enciclopédia alemã divide seus tomos em a-k e l-z para ter 2 volumes iguais.
A relação entre o volume de páginas entre a-m e n-z para dicionários padrão comportam-se assim nas 4 seguintes línguas: Dicionário Etimológico Nova Fronteira: 542:296 páginas (= 1,8); Larousse (francês) 227:133 páginas (= 1,7); Oxford Dictionary and Thesaurus: 987:801 páginas (1.3); Duden (alemão): 369:316 páginas (1.16).
Nesses números está a chave para minha preferência lingüística, a beleza do português brasileiro falado, apreciado também por outras nações.
Quais as letrinhas que provocam esse encanto pessoal e internacional? É a abundância dos as em vatapá e abacate, e sua singular nasalização em amante, tamanduá e mamãe; são os bês em beberibe e bebê, tão superiores aos pês de papo e pipa. Os dês de dado e dendê, tão mais carinhosos que os tês de tato e tatu. Não posso cantar o efe, mas compensam o gê e logo mais o jota, as suaves jóias do português, alcançadas apenas pelo francês. O aga é mero ornamento. Abunda o i: Ijuí, Ivoti e Iraí; subversivo, multiplica-se até à custa alheia em pede e mede, atordoando ainda o dê : pedgi i medgi.
O que tem a oferecer a contraparte? Tem, digamos, o o em sua forma aberta, ou quando convertido em u: pouco, louco; já o rr, quando carioca (um agá alemão e inglês), é uma jogada genial do português que sequer os franceses acompanham! O vê e o zê merecem menção, mas não são lá grande coisa! Ok., nosso pê merece certo destaque, pois dispensa o duro soprinho do irmão inglês e alemão. Curiosidade à parte: os colonianos encontraram seu jeito, Bonaparte ensinou, e gostam até hoje.
Bem. Como dizia, são coisas de amor e de preferências, que não se discutem! Na fila do SESC, estou meio sozinho; já nas minhas preferências não: o povo brasileiro nomeia 5 entre 6 de seus filhos com minhas letrinhas amadas! Entre os informados 10 colaboradores deste blog, dois têm nomes estrangeiros. Dos restantes 8, a relação é de 7:1. Entre os “sites, blogs e perfis dos colegas” (sem distinguir nomes estrangeiros de brasileiros), a relação é 50:10. Não tem o que discutir!
Não serei o único “tradutor nativo” a reparar sua metamorfose de “nativo A” para um eventual “nativo B”, e a fazer suas continhas, suas equações, que são de menos, pois nunca chegam a cem. Para mim, o “A” coincide com alemão, e o “B” com brasileiro. Para colocar de cara o cerne da coisa: no Brasil, posso me caracterizar como tradutor nativo para alemão. É o que acontece. Poderia eu, entretanto, na Alemanha denominar-me nativo brasileiro? Melhor: a partir de quando eu eventualmente poderia? Façamos uma continha: os primeiros 13 anos de vida passaram-se no Brasil. Desses, 6 aninhos sem ouvir português, seguidos, porém, de marcantes 7 anos de escolaridade brasileira. Digo marcante porque, no mundo teuto, sinto eternamente as vitais lacunas da escolaridade perdida na Alemanha. As lendas, a geografia, as cantigas infantis e folclóricas, das quais aliás não acho graça (sic!). Neste sentido, a balança imaginária começava a tender para a natividade brasileira. Seguem 23 anos na Alemanha, sem grandes simpatias por ela, o que prejudica sua absorção. E outros 19 anos no Brasil. Anos atentos à língua, anos logo voltados à tradução. De certa forma, a balança entre A e B passou do ponto de equilíbrio. Claramente pela estatística, mas também aparentemente, pelos indícios. Aritmética já não é. É mesmo de sensação e de observação. Sinto onde meu vocabulário evolui e onde definha. E esse processo não é linear. Depende do registro e do campo temático, por exemplo. Recentemente, o alemão sofreu reforma ortográfica um bocado impactante. Flagro-me com dúvidas antes inexistentes com relação a verbos compostos e às maiúsculas. Até com relação a preposições. É quando me sai um surdo “opa”, é quando percebo que o tempo correu, que estou a 12 mil km daquela língua, que ela chega pelos meus olhos, e não pelo ouvido. Que me sai pelos dedos e não pela boca. Língua morta, de certa forma. (Já outros conseguem ressuscitar línguas mortas há milhares de anos!) É uma metamorfose muito interessante, e certamente todo tradutor a experimenta em sua própria particularidade de ser e de ela suceder. Com maior ou menor intensidade. Mais que aritmética, é alquimia. É onde falham gavetas burocráticas ou sindicais. É dirigível [quis usar conduzível, mas vetam-me os dicionários], porém não dominável.
é um passo. Fomos desprevenidos, de turismo, e assim chegamos. Depois de 500 km de terra plana, finalmente o extremo sul do Brasil. Queremos adentrar 20 km em terra uruguaia para ver um famoso forte. Cruzar fronteiras é sempre algo fascinante, ainda mais neste Brasil sem fronteiras.
Barra-nos um aduaneiro uruguaio. Quer a carta verde, que teríamos que providenciar no centro de Chuí. Seu colega parece estar em desacordo, mas é subordinado. Mercosul parcial.
Vamos à Barra do Chuí, onde o pessoal, incrédulo da brincadeira do alfandegário, indica-nos uma estrada opcional por sobre a ponte internacional sem qualquer controle. Fazemos nosso passeio, retornamos deslumbrados com a beleza da fortaleza San Miguel e do pampa.
No centro de Chuí, a grande surpresa. De repente nos encontramos em meio a um infinito turbilhão de pessoas em plena e ampla avenida de 4 pistas onde mandam o pedestre e o camelô. Sabe-se lá em que solo estamos. Difícil encontrar um brasileiro. Nas placas comerciais e na propaganda predomina o espanhol, o turista é antes uruguaio que brasileiro. Turista do hemisfério sul aparenta rumar para o norte. E o extremo sul brasileiro é o extremo norte uruguaio.
Meu Passat 78 clama por uma oficina. Em três oficinas atendem-me mecânicos uruguaios. A pizzaria na Barra está em mãos uruguaias, a que talvez se deva sua excelência. No hotel brasileiro, avisos exclusivamente em espanhol. Na praia, turistas uruguaios.
O que eu queria narrar mesmo é dos dois idiomas que ali se confundem. Uruguaios que, entre si, falam mais rápido que seus velhos carros andam. Não há como entender. Conosco falam um portunhol carregado de eternos surdos: preciço viachar amañâ. Cidade repleta de tradutores e intérpretes: cada qual é seu próprio tradutor passivo. Recomendo a beleza desses rincões também aos tradutores ativos!
é umchavão, porquetudo e todos estão globalizados. Comparemos brevemente o tradutor de 15 anosatráscom o de hoje.
Quando, em 1994, comecei a trabalhar na universidade, eu contava comumcomputador e uma intranet. Umprecáriosistema de mails começava a funcionar. Na bibliotecauniversitária havia umacervobeminferior a cemmilexemplares de livros, dentreelesalgunspoucosdicionáriospadrão. 14 anosdepois, meucomputador tem acesso a dezenas de idiomas do mundo e a zilhões de sites e documentos. E a dicionários online, alimentados peloprópriousuário. ‑ E a biblioteca é a mesma, grossomodo. Ouaté encolheu.
Em1987, aUnião Européia se convenceu da conveniência do intercâmbioentresuasnações. Criou o programa Erasmus, peloqualhojemuitomais de ummilhão de estudantesuniversitários estagiam anualmente no estrangeiro. Entreeles, certamente os futuros tradutores. Também os EUA investem no intercâmbio de seusestudantes. Os estudantesasiáticos, particularmente os chineses, estão fortementepresentes nas universidades européias e americanas. Mesmo o Brasil, jovem de 508 anos, está despertando.
Nuncaantes houve númerostãoexpressivos de intercâmbio multicultural. Havia o fluxo à metrópole de cadaera. Se, antes, bilingüismo e biculturalismo forafelizconstituinte de tradutores, estessãohoje provocados, intencionais, conscientes, mais realizáveis e fáceis. Ou seja, o queantesforaacaso, hoje é intencional, porémidêntico: conhecer a outraculturaparafacultar a comunicação, o intercâmbio. Os Agenores mineiros, hinterlandeses e mirabolantes, sãohojeespécienãorara, masextinta.
O que significa isso na prática traducional? Que as coisasnos ficaram mais fáceis. Querdizer: hojeum tradutor consegue resolverproblemas, solucionardúvidasqueontemnão teria conseguido solucionarcom o seuconhecimentoatual. Ontemeraprecisosermaiscraquepararesolver as questõesquehoje se resolve semsergêniouniversal. Nãoapenas no conhecimentoprivativo acumulado. Também na capacidade da pesquisabibliotecária. Procurar na internet é maisfácil do queprocurar na biblioteca. Encontrar na internet é maisfácil do queencontrar uma biblioteca de qualidade, eventualmente a centenas de quilômetros.
Ou, numa afirmação bempessoal: muitas vezesme pergunto como teria eu conseguido traduzir o quehoje traduzo. E a resposta é umsilêncioglobal.
Adianto ao leitor desses 5 parágrafosque a sensação sobreviverá a minhaslinhas. Senãonão seria estranhez, seria outracoisa, por explicado. Gostaria de descobrir se essa estranheza é peculiar.
Poisestranhominhaaversão a tantas traduções alemãs de ficçãolatino-americana. Essa numerosasérie de palavras brasileiras e espanholas que entremeiam o textoalemão: os Pedros, haciendas, candomblés, siestas, señoras e pampasque ressaltam, quenão se me inserem, feitogirafasempampasouemasempradarias; que recusam suaintegração no ideário alemãoemque o tradutor introduz este teuto leitorque sou eu. A estranhezanão vem do fato isolado. Ela contrasta com a experiência de que a sensaçãonão se me repete com a ficção de outrosquatrocantos do globo: América do Norte, Rússia, Ásia.
A únicapistaque tenho paracompreender o fenômeno é que essas palavrasemvernáculooriginal teriam umsignificadomaispróximo, íntimo, paramim ‑ poreusertambémentendedor do português e espanhol ‑ do quescout, Rocky Mountains, Anushka, darling, mammachi emister,queigualmentenão costumam ser traduzidos emficção vertida para o alemão.
Não bastasse isso, estou fazendo outraexperiência neste sentido: ando relendo, emportuguês, o indiano “O deus das pequenascoisas”, queeminglêsme fascinou demais. Mas o fascínionão está se repetindo! Evidentequeissopoderia se explicarpela releitura [Ai! Quisera podervoltaratrás no tempoparapodertranqüilamenteusar o torneioclássicopoder-se-ia explicá-lo, queme soa tãobememmeuouvido teuto, e tãoafetado no brasileiro!], uma vezque a traduçãopara o portuguêsme parece impecável. Será que o fascínioveiomais da decifração do inglês? Se foi, não explica tudo, pois sei que as inúmeras associações inesperadas da autora me encantaram a todahora.
Pois está aí o enigma. Será comoumfilmevistoapós a leitura de seulivro? E, se for, como ficam os pampas e as siestasemmeuslivrosalemães, quenão abro oulogofecho?
Também o antigovinil as teve. O CD ainda deve tê-las. Já o emule e famílianão as têm, de geneticamente modificados quesão.
Das pernas e penas sabe quemamasuasestantestantoquanto a seusamigos, fazendo porisso a ponteentreseusdoisamores. Sangria, ponte de mãoúnica. Bem sabe-o aquelequemaisama a seuslivros do queseusprópriosamigos, ao estancarcomdolorosoveto a mesmahemorragia.
A cadalivro lido causa-nos o amor à literatura ‑ fictíciaounão ‑ o ímpeto de passá-lo a amigos e conhecidos. Aindaque o cremoso folhado circule emcírculovicioso, recompensam-nos ao menos as dicas de outroslivros, senão o próprio. Aliás: quantomenor o círculoamistoso, menosvicioso.
Comolegítimosdonos da encapada voz do autor, contudo, obedecemos a doisbeligerantesdeusesíntimos: o missioneiro e o cobiçoso. Tendemos a aleijar essa voz bibliográfica, a mantê-la emcadeira de rodasmóvel, porémnãoautomóvel. Queremos a missão controlada.
Comosempre, há os do contra. Aliei-me a eles, ao menosum pouquinho. Quando avalio quenemeunemalgumfamiliar pegará novamenteemmãoscertolivro no decênio, sigo exemplo de amigomeu: repasso o livro à bibliotecaou a amigosqueporsuavez o passarão adiante. Ou ao sebo, modalidadeque a rede de seboswww.estantevirtual.com.brultimamente oferece aos livrosnãoaleijadosaté da província. Serviçoque instiga a extravagância do missioneiro literário. Ao salvá-los de traças e baratas, salva os pobreslivros da vidaeterna e permite-lhes criarnovosbrotosemcrânioseternamentedesconhecidos. Emvez de presosemprateleiras, retornam à correnteliterária!
Atéaí, tudonormalentrecertaclassesocial. Masquando o sujeito é bilíngüe, jáseusamigos e o livronão? Ah! Aí pega-se o livro e se o traduz para os amigos e demaisdesconhecidosleitores! Tive a felicidade de encontrar uma editoraparadoislivrosquequis disponibilizar ao públicolusófono (A DécadaVermelha e A Utopia do Expurgo, ambos de Gerd Koenen]. Com a parcela de livrosqueme convinha como tradutor, pude presentear uma série de amigos e bibliotecas. Novaspontes construídas!
Não é raro apaixonar-me tantopelonovolivrodescobertoque verifico se já existe emportuguês. Já pesquisei peloe-mail de umautor chinês, e lhe escrevi, semobterresposta. Apaixonei-me pelaedição inglesa de O Deus das PequenasCoisas, masoutro apaixonado se antecipara. Semanapassada, apaixonei-me por Leonie Swann, Three Bags Full, que li emalemão. Dávontade de sentar e verter e verter, paraque o livro crie ‑ asas.
‑Leva não, filha! – Estás indo para a terceirasérie, não é?
‑ Tô, pai, tu sabe!
‑Então vou teensinar uma regrinha pequenininha, e tu vais ser a mais sabidinha da turma na acentuação. Consegues decorar 5 coisinhas de nada e umas 3 dicas?
- Paiê, sei coisasmuitomais difíceis. Já sei contarquaseatémil!
- Então, veja: imagina umportuguêssemacentos. Aí todas as palavrassãotônicasemsuaúltimasílaba. Todas, menos as 5 coisinhas quete comentei: as palavrasque terminam em a, e, o, am e em. Estas têm suatônicanatural na penúltimasílaba. Porexemplo: baba, pele, avo, amam, porem. A regravaleatépara o plural de todas essas palavras.
- Então, filha: quando a gentequerque uma dessas palavras tenha suatônicaemoutrasílabaquenão a natural, é sójogar o acentoparalá. Podes fazerissocom os exemplosquete dei, e terás palavrasnovas. E, afinal, sabes a diferençaentreumacentoagudo e uma casinha, não é? Depois vamos aindafalar de ditongos e hiatosparaarredondar a questão...
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Vi essa regrinha num livroalemão de ensino da língua portuguesa**. Revelou-se regraáurea, de fácilmanuseiomesmo de madrugada, apóspizzas e chopes. Aplica-se até às palavras monossilábicas: já, pé, ti, pó, tu. Mais: tãoválida é que os descabidosacentos do tipo “idéia” e “vôo” caem com a reforma ortográfica pretendida, enquantoque “a regrinha” fica inabalada, pétrea. Pornatureza, elanão abrange os artificiais e arbitráriosacentos diferenciais. Aliás: no fundo, a reforma ortográfica reconhece um pouquinho a “regrinha”.
Nem na internetnememoutroslugares encontramos essa abordagem da acentuação gráfica do português. Algumas abordagens se aproximam. Na hora H, no entanto, sucumbem ao tradicionalismo das “regras” oficiais. Sucumbem às “oxítonas”, “paroxítonas” e ”proparoxítonas”, gregoparainfantes e adultosnãomenosqueotorrinolaringologista e endocrinologista, sempre traduzidas ao português no guiatelefônico. E, como se não bastasse, agregam ainda “casosespeciais“, que a “regrinha” derruba numa cutucada de nada!
Reza a introdução do Michaelis às “regras da acentuação gráfica”: “O português, assimcomo outras línguas neolatinas, apresenta acentográfico.” Tudobem. E daí?! Nenhum desses descritores de regras tem nem satisfaz a curiosidadepeloporquê do acento. Só dizem que têm. Não elucidam a óbvia, a perceptível tônicanaturalsubjacente, à flor do vernáculo. Logomais, afirma o Michaelis: “Além disso, você notou que a sílabatônicanemsempre recebe acentográfico. Portanto, todas as palavrascom duas oumaissílabas terão acentotônico, masnemsempre terão acentográfico.” O ignorante, ávidopor se alfabetizar, espera a elucidação do fenômeno. Qualnada! Segue a descrição de umenormecaossemexplanação. E multiplica-se o caosemmilhões de cabeças lusopensantes.
Aliás, e bementendido: o quenos apresentam como “regras de acentuação gráfica” não as são. São a descrição de regras de acentuação gráfica. Descriçãoque plantou bananeira. Se estudarmos “as regras” livres do efeitomoral da tradição, se racionalizarmos palavras e raciocínio, chegaremos à conclusãoquemaislógico é descrever a regracomo uma só, comumaexceçãofácil de memorizar:
As palavras portuguesas terminadas ema, e, o, am e em têm suatônicanatural na penúltimasílaba. As demais, na última. Compreendidos os plurais de ambos os grupos. Sempreque a tônica se deslocar da tônicanatural, incide acentográfico. Exceção é o grupo de palavras terminadas emen,cujoplural segue a regra das terminaçõesemens (exemplo: garagens).*
Pronto!Formulamos uma regrafácil de lembrar! (Aliás: as palavras alemãs de origemgermânica, porexemplo, têm suatônica na primeirasílaba, comexceção de algumas palavrascomprefixos.)
“Tônicanatural”. Não sei se os gramáticos a detectaram e como a denominam ou denominariam. Masela existe. Porquechama o lusófono o Zéppelin (alemão) de Zeppelín, a Lúfthansa (alemão) de Luthánsa? Porque a tônicaalilhe é naturalenquantonenhumacentográficoforçarpronúnciadiferente.
Mostram-nos os exemplosanteriores: o luso-falante, aindaqueanalfabeto, tem uma maneira de distribuir as tônicas nas palavras. É o que chamei de “natural”. Istonão é uma regra, é uma descrição; é umporvia deregra. Pois, nas tantas palavras acentuadas, o luso-falante foge ao princípioouregraporrazões várias, uma delas a etimologia, certamente.
Não questiono os gramáticos. Não dizem nada de errado. Questiono a didática: se de diversas maneiras pudermos descrever o fenômeno das tônicas no português, a maneiramaissimples é a maisdidática. É bempossívelque os gramáticosnão possam deixarsuanomenclaturanemseumodo de apresentação. Masque deixem issoparaseuentendimentointerno.
Quantonão subiriam as notasmédias dos alunos e a qualidade da ortografia do povobrasileiro se aplicássemos a simpleslógica da “regrinha”! Porque haveriam os alemães de usufruir dessa simplesexplanação à introdução ao idiomaportuguês, e os luso-falantes não? Algum de nós daria a seusfilhos uma explicaçãocomplexa e cabeludíssima se conhecesse uma simplesousimplória?
Quantonão complicam o ofício, a nós tradutores, essesmal-aventuradosacentosgráficos da escrita dos modernostempos!
A “regrinha” quequalquercriança de 8 anosparamais consegue entender merece o comando.
* São poucas palavras de origemgrega, hebraica, alemã, inglesa, etc.: hífen, abdômen, âmen, cáften, dólmen, éden, gérmen, hímen, líquen, lúmpen, sêmen, etc. Estesplurais confundem-se hojecom os plurais das palavras de origemlatina.